sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"O Novo Nascimento" John Wesley


O Novo Nascimento

John Wesley

"Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo" (João 3:7)

1. Se alguma doutrina, dentro de toda a extensão do Cristianismo, pode ser propriamente denominada fundamental, essas duas, sem dúvida são elas: a doutrina da justificação, e aquela do novo nascimento. A primeira relativa àquele grande trabalho o qual Deus operou por nós, perdoando nossos pecados; a última, ao grande trabalho que Deus operou em nós, renovando nossa natureza caída. Na ordem do tempo, nenhuma delas é colocada antes da outra: No momento em que nós estamos justificados, pela graça de Deus, através da redenção que está em Jesus, nós somos também "nascidos do Espírito", mas, em ordem de pensamento, como está denominada, justificação precede o novo nascimento. Nós, primeiro, temos em mente, sua ira sendo desviada, e, então, seu Espírito operando em nossos corações.

2. De quão grande importância, então, deve ser para todos os filhos do homem, entenderem completamente essas doutrinas fundamentais! Da total convicção disso, muitos homens excelentes têm escrito bastante largamente a respeito da justificação, explicando cada ponto relativo a ela, e abrindo as Escrituras que tratam a esse respeito. Muitos, igualmente, têm escrito sobre o novo nascimento: E alguns deles, largamente suficiente; mas, ainda assim, não tão claramente como poderia ser desejado; nem tão profundamente ou corretamente; tendo dado um relato obscuro, e de difícil compreensão, assim como, insignificante e superficial. Entretanto, um completo, e, ao mesmo tempo, claro relato do novo nascimento parece ser ainda esperado; de tal maneira, que possa ser capaz de nos dar uma resposta satisfatória a essas três questões:

I. Por que nós devemos nascer de novo? Qual o fundamento da doutrina do novo nascimento?

II. Como nós devemos nascer de novo? Qual a natureza do novo nascimento?

III. Para que nós devemos nascer novamente? Para que finalidade ele é necessário?

IV. Essas questões, pela assistência de Deus, eu devo, responder, brevemente e plenamente; e, então, acrescentar algumas poucas inferências as quais naturalmente se seguem:

I

(1) Por que nós devemos nascer de novo? Qual o fundamento dessa doutrina?

O alicerce dela é tão remoto quanto a criação do mundo; num relato bíblico, a respeito do que nós lemos: (Gen. 1:26,27) "Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar; sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". — Não somente, em sua imagem natural, um retrato de sua própria imortalidade; uma existência espiritual, Doda com entendimento, liberdade de vontade,e afecções várias; — não meramente em sua imagem política, de governador desse mundo aqui de baixo, tendo "domínio sobre os peixes do mar, e sobre toda a terra"; — mas, principalmente, em sua imagem moral; que, de acordo com o Apóstolo, em (Efésios 4:24) "E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão precedentes da verdade". Nessa imagem de Deus o homem foi feito. "Deus é amor". Por conseguinte, o homem de sua criação era cheio de amor; que era o princípio único de todo seu temperamento, pensamentos, palavras e ações. Deus é cheio de justiça, misericórdia, e verdade; de modo que assim era o homem, quando ele veio das mãos de seu Criador.

Deus é imaculadamente puro; e assim o homem era, no início; puro de toda mancha de pecado; do contrário, Deus não o teria pronunciado, tanto quanto toda obra de suas mãos, "bem feita" (Gen. 1:31) "Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom". Isto ele não seria, se ele não estivesse puro do pecado, e cheio com a retidão e a santidade verdadeira. Porque não existe meio termo: se nós supomos uma criatura inteligente que não ame a Deus, que não seja reta e santa, nós necessariamente supomos que, afinal, não seja uma boa pessoa; muito menos, que seja "muito boa".

(2) Mas, embora o homem tenha sido feito a imagem de Deus, ainda assim, ele não foi feito imutável.

Isso teria sido inconsistente com o estado de experimentação, na qual Deus estava satisfeito de situá-lo. Ele foi, entretanto, criado capaz de permanecer nele, e ainda sujeito a cair. E isso o próprio Deus o notificou a respeito, e deu a ele um aviso solene contra. Contudo, o homem não subsistiu na honra: Ele caiu do seu alto posto. Ele "comeu da árvore que o Senhor tinha ordenado a ele que não comesse". Por esse ato proposital de desobediência ao seu Criador, essa rebelião clara contra o Todo-Poderoso, ele declarou abertamente que não poderia ter as regras de Deus sobre ele, por muito tempo. Que ele seria governado por sua própria vontade, e não a vontade Dele que o criou; e que ele não buscaria sua felicidade em Deus, mas no mundo, no trabalho de suas mãos. Agora, Deus disse a ele: "No dia em que comeres" daquele fruto, "tu certamente morrerás". E a palavra do Senhor não pode ser quebrada. Por conseguinte, naquele dia, ele morreu: ele morreu para Deus, — a mais terrível das mortes. Ele perdeu a vida de Deus. Ele foi separado Dele, em cuja união sua vida espiritual consiste.

O corpo morre, quando ele é separado da alma; a alma, quando ela é separada de Deus. Mas essa separação de Deus, Adão manteve nesse dia, no momento em que ele comeu do fruto proibido. E disso, ele deu prova imediata; presentemente, mostrando, por seu comportamento, que o amor de Deus fora extinguido em sua alma, e que agora era "alienado da vida de Deus". Em vez disso, ele estava debaixo do poder servil do medo, de modo que ele fugia da presença do Senhor. Sim, tão pouco ele reteve, até mesmo, do conhecimento Dele que encheu os céus e a terra, que ele se esforçou para "esconder a si mesmo do Senhor Deus, entre as árvores do Jardim". (Gen. 3:8). Assim sendo, ele perdeu tanto o conhecimento quanto o amor de Deus, sem o que a imagem de Deus não poderia subsistir. Disso, entretanto, ele foi despojado, no mesmo instante, e tornou-se impuro e infeliz. Nessa oportunidade, ele afundou no orgulho e vontade própria, a mesma imagem do diabo; e nos apetites sexuais e desejos; a imagem das bestas que perecem.

(3) Se tivesse sido feita apenas uma ameaça, 'no dia em que comeres dele, tu certamente morrerás', referindo à morte temporal; apenas essa; à morte do corpo, tão somente", a resposta seria clara: afirmar isso é positivamente e palpavelmente fazer de Deus um mentiroso; asseverar que o Deus da verdade positivamente afirmou o contrário da verdade. Porque é evidente que Adão não morreu nesse sentido, "no dia em que ele comeu do fruto". Ele viveu, ao contrário, novecentos anos mais. De maneira que isso não poderia ser possivelmente entendido como a morte do corpo, sem contestar a veracidade de Deus. Isto deve ser entendido, no entanto, como a morte espiritual; a perda da vida e imagem de Deus.

(4) E, em Adão, todos morreram; toda a espécie humana; todos os filhos dos homens estavam, então, na força motriz de Adão. A conseqüência natural disso é que cada um dos descendentes dele veio para o mundo, espiritualmente morto; morto para Deus; totalmente morto no pecado; inteiramente vazio da vida de Deus; vazio da imagem de Deus, de toda retidão e santidade, na qual, Adão foi criado. Em vez disso, todo homem nascido no mundo carrega agora a imagem do diabo, no orgulho e amor-próprio; a imagem da besta, nos apetites sexuais e desejos. Isso, então, é o fundamento do novo nascimento —, a corrupção total de nossa natureza. Assim sendo, que, tendo nascido no pecado, nós devemos "nascer novamente". Conseqüentemente, cada um que é nascido de uma mulher deve ser nascido do Espírito de Deus.

2 comentários:

  1. Que a misericórdia de Deus alcance a todos quantos Ele mesmo separou para a salvação! Meus filhos, inclusive!

    ResponderExcluir